Propósito está batido.
Quando o propósito existe apenas na parede, realmente perde força. Mas quando orienta decisões e ajuda as pessoas a entenderem por que fazem o que fazem, continua sendo um dos temas mais relevantes para quem lidera.
Tenho escutado essa frase com frequência nos últimos anos. Ela costuma aparecer quando o tema é tratado como discurso, slogan ou campanha institucional. Mas talvez o problema não seja o propósito. Talvez seja a forma como muitas empresas falam sobre ele.
Quando o propósito existe apenas na parede, realmente perde força. Quando orienta decisões, influencia estratégias e ajuda pessoas a entenderem por que fazem o que fazem, ele continua sendo um dos temas mais relevantes para quem lidera. Por isso, antes de decretar que propósito ficou para trás, vale entender por que ele continua ocupando espaço nas pesquisas, nas universidades e, principalmente, nas organizações que conseguem atrair e manter pessoas engajadas.
Por que o propósito continua sendo importante?
O tema propósito faz parte de um campo de estudos conhecido como Significado do Trabalho, amplamente pesquisado na Europa, nos Estados Unidos e em países da Oceania. Esse interesse cresce porque a relação das pessoas com o trabalho mudou. Hoje convivem nas empresas profissionais de diferentes gerações, com histórias, expectativas e formas de enxergar a carreira bastante distintas.
Em um artigo anterior que escrevi, cito a questão das gerações da seguinte maneira: “Os valores de uma pessoa que nasceu na década de 60, uma que nasceu na década de 80, e uma que nasceu na primeira década do século XXI tem um alto potencial de serem diferentes.” Isso não significa que idade determina comportamento. Pessoas da mesma geração podem pensar de maneiras completamente diferentes. Mas existe uma mudança de padrão. Cada vez mais profissionais procuram significado no trabalho e consideram esse fator na hora de escolher onde trabalhar e permanecer.
O que, de fato, é propósito?
Uma das definições mais completas é apresentada por Pratt & Ashforth (2003). Para os autores, propósito responde a uma pergunta bastante simples: "Por que eu estou aqui?"
Durante muito tempo, essa resposta esteve ligada principalmente à estabilidade, remuneração e crescimento profissional. Esses fatores continuam importantes. Mas, para muitas pessoas, eles já não são suficientes.
Ao pesquisar empresas que colocam o propósito no centro da estratégia, encontrei respostas como: "Estou aqui porque acredito no impacto que geramos." "O trabalho que fazemos melhora a vida das pessoas." "Escolhi ganhar menos porque encontro mais sentido no que faço." Em uma dessas empresas, todos os líderes entrevistados afirmaram que permaneceram justamente pelo propósito, mesmo recebendo menos do que no emprego anterior.
Esses relatos mostram que propósito deixou de ser apenas um discurso inspirador. Para muita gente, tornou-se um critério concreto de escolha.
Quando o propósito orienta decisões
É fácil falar sobre propósito. Difícil é tomar decisões coerentes com ele. Um exemplo interessante é a Dengo. Fundada por Guilherme Leal e Estevan Sartorelli, a empresa escolheu a renda justa como um dos pilares da sua estratégia. Na prática, isso significa remunerar produtores de cacau em valores superiores aos praticados pelo mercado, fortalecendo justamente o elo mais vulnerável da cadeia produtiva.
Essa decisão gera impactos que vão muito além do fornecedor. Ela fortalece a identidade da marca, influencia a cultura e torna o propósito visível nas escolhas do negócio. Durante uma pesquisa realizada com produtores de cacau no sul da Bahia, foi possível perceber como essa coerência se traduz em relações mais duradouras e maior confiança entre todos os envolvidos.
O que organizações orientadas ao propósito costumam construir
Quando propósito deixa de ser discurso e passa a orientar decisões, alguns efeitos aparecem com mais frequência: uma maior capacidade de atrair lideranças experientes, mais engajamento entre colaboradores, menor rotatividade e clientes que criam vínculos com a marca porque enxergam coerência entre discurso e prática.
Nenhum desses resultados acontece apenas porque a empresa escreveu um bom manifesto. Eles aparecem quando as pessoas conseguem perceber que o propósito influencia escolhas reais.
Como desenvolver líderes orientados ao propósito
Construir uma liderança orientada ao propósito exige consistência. Alguns passos ajudam nesse processo:
- Definir um propósito que gere valor para a sociedade, além dos resultados financeiros.
- Demonstrar esse propósito por meio de decisões concretas.
- Incorporar o tema ao planejamento de longo prazo.
- Criar indicadores que permitam acompanhar sua evolução.
- Desenvolver continuamente líderes e equipes.
- Reconhecer comportamentos alinhados ao propósito da organização.
Mais do que comunicar um propósito, a liderança precisa demonstrá-lo diariamente. As pessoas dificilmente se conectam com discursos. Elas se conectam com decisões. E é essa coerência que transforma propósito em cultura.
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